POST #1



Estamos em 1960 e Licklider espera que não em muitos anos o cérebro humano e o centro nevrálgico das máquinas estejam intrinsecamente ligados; uma ligação nunca antes imaginada pelo Homem. No ano seguinte, em 1961, Burroughs escrevia sobre o tão famoso "cut-up method of Brion Gysin" [1] e propunha uma democratização da poesia. "Poetry is for everyone" pode ler-se no texto de Burroughs quando cita Tristan Tzara (o famoso poeta, um dos iniciadores do movimento dadaísta).

Hoje, parece impossível pensar quanto do mundo que tinha sido antevisto não se tenha concretizado já. É também legítimo procurar em pleno século XXI os carros voadores e os robots capazes de expressar sentimentos como nos foi apresentado pelo cinema ao longo das décadas de 60, 70 e 80.

Hoje, parece impossível pensar quanto o homem está em simbiose com este admirável mundo das máquinas, quanto nos transformamos em seres humanos cheios de apêndices electrónicos (telemóveis, iPods, computadores portáteis) que são hoje, em nós, uma espécie de braço, uma extensão de nós mesmos.

Hoje, olhamos para o texto de Licklider[2] há 50 anos atrás e observamos como nos tornamos em seres previsíveis (ou seria Licklider um visionário), capazes de nos habituarmos a esta ideia de futuro que se torna tão presente em nós. Licklider previa um futuro optimista onde as máquinas serviriam o homem no exercício de actividades repetitivas e comezinhas, libertando-o para actividades mais críticas de raciocínio e pensamento criativo. É certo que as máquinas e a simbiose coabitam hoje no nosso dia-a-dia: posso programar o meu café para que se faça uns minutos antes de acordar; posso pedir ao meu espelho que avalie a minha condição física e me diga se haverá alguém mais belo que eu; posso saber quais as vias de trânsito mais congestionadas antes de sair de casa de modo a evitá-las. A vida tornou-se mais simples porque esta simbiose entre o homem e a máquina existe.

Hoje, o homem pode usar a máquina para criar arte, para que, mais uma vez, a máquina seja uma extensão de si próprio (o seu braço biónico). O Homem pode, hoje, criar arte, simular espontaneidade, criar a criatividade, pedindo a uma máquina que gere poesia ou texto por si.

Hoje, ao servirmo-nos da tecnologia para criarmos alguma forma de expressão artística conseguimos realmente simular motivos, sentimentos e inspiração de forma espontânea e autêntica? Ou, por contraste, esta nova forma de criação artística encerra-se numa obra de arte em si mesma despindo-se da sua forma autoral, autêntica e pessoal?

Hoje ou amanhã (?), seremos todos dadaístas tanto quanto somos todos designers[3] ?








1. Burroughs, William S. "The Cut-Up Method of Brion Gysin", New York, 1961
2. Licklider, J. C. R. "Man-Computer Symbiosis", 1960
3. Hockenberry, John "We are all designers", TED Talk, 2012